Uma mulher de 45 anos está internada em estado grave no Hospital de Base de Rio Preto porque sofreu complicações depois de ser submetida a uma cirurgia de redução de "papada" na manhã desta terça-feira, 8. A reportagem apurou que a operação foi realizada em uma clínica de odontologia, fora de ambiente hospitalar, por uma tia da paciente, que é dentista.


Ana (nome fictício) é moradora de Rio Preto. Ela chegou a ter alta e estava dentro do carro com o marido quando começou a ter convulsões. A família teria chamado um carro de aplicativo e o motorista estacionou na frente de uma clínica médica na avenida Alberto Andaló quando a mulher começou a passar mal. Funcionários e médicos fizeram os primeiros socorros e acionaram o resgate às 10h38.


Quando os bombeiros chegaram, Ana já estava em parada cardiorrespiratória e uma mulher tentava reanimá-la. A equipe levou cerca de 40 minutos para fazer os batimentos voltarem e a paciente foi levada ao HB, onde novamente teve parada cardiorrespiratória e ficou mais 40 minutos sem respirar. A reportagem apurou junto a médicos que, caso ela sobreviva, são grandes as chances de que tenha alguma sequela, já que o cérebro ficou muito tempo sem receber oxigênio.


O estado de saúde da paciente é grave e ela está sedada e entubada. Ana seria transferida para a UTI ainda nesta terça-feira, 8, mas desde sua entrada no HB, por volta das 11h40, já havia entrado no suporte intensivo.


Uma resolução do Conselho Federal de Odontologia (CFO) publicada no início deste ano reconhece a harmonização orofacial como especialidade odontológica e permite que cirurgiões dentistas realizem plásticas na face. Autoriza a realização de bichectomia, para diminuir a bochecha, além de, por exemplo, cirurgias para correção labial e uso de toxina botulínica e preenchedores faciais.


Sofia Takeda Uemura, cirurgiã dentista do Conselho Regional de Odontologia (CRO) do Estado de São Paulo, diz que a resolução 198/2019 não deixa claro quais são os procedimentos permitidos. "É uma resolução nova, esse é um ponto que a gente vem discutindo, não tem um entendimento firmado de quais estariam dentro dessa resolução."


O texto estabelece que para realizar procedimentos de harmonização orofacial é necessário ser especialista na área registrado nos conselhos. O mínimo exigido é um curso de 500 horas. A resolução não determina a quais requisitos as clínicas de odontologia devem atender para serem aptas a receber pacientes para essas cirurgias - segundo Sofia, este ponto também ainda está sendo analisado.


Caso a paciente ou sua família entendam que no procedimento realizado nesta terça houve algum desrespeito à ética profissional de cirurgiões dentistas, é possível registrar uma denúncia no CRO.


Na época da publicação da resolução 198, a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina divulgaram uma nota em que afirmam que a resolução é mais uma tentativa de "ampliar irregularmente o escopo de atuação de dentistas, invadindo a esfera de atuação exclusiva dos médicos, segundo disposições expressas da Lei do Ato Médico". As entidades chegaram a entrar na Justiça contra o documento, mas ele está valendo.


Dentistas ouvidos pelo Diário à época argumentam que durante a faculdade os odontologistas estudam toda a face e, portanto, estariam aptos a realizar intervenções. Já médicos consideram que cirurgiões plásticos e dermatologistas levam anos para se aperfeiçoarem em suas áreas e são treinados para lidar com complicações. Para os profissionais, a resolução do CFO contraria a lei federal do ato médico, que determina que são de exclusividade do médico a indicação e a execução da intervenção cirúrgica e prescrição dos cuidados pré e pós operatórios e a indicação da execução de procedimentos invasivos - sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos.


( Diário da Região , colaboraram Guilherme Baffi e Rone Carvalho)

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